Raia mais uma vez o sol...
Mais uma vez as contrações celulares palpitam, numa desordem de micro explosões nucleares, os olhos que cerrados estavam, abrem-se após seu repouso burlesco. Imediatamente as pupilas se contraem num ritmo sincronizado, a luz penetra fulminante no campo de visão. Mãos ásperas, calejadas e trêmulas exsurgem num esforço quase lânguido de limpar aqueles olhos. Olhos que já perderam o viço com as décadas já passadas. Num ato reflexo, um corpo já gasto pelo tempo se levanta do seu leito de repouso. A partir daí a consciência começa a acordar. Enquanto o corpo caminha a passos preguiçosos, a mente explode em pensamentos...Perguntas, indagações, dúvidas e poucas certezas... A mente deixa inexoravelmente seu estado de repouso e já trabalha a todo vapor... Impulsos eletromagnéticos passem pelas sinapses ainda saudáveis, movendo o pensamento em intermináveis ligações neurológicas.
O dono desse corpo vê sua imagem refletido num desgastado espelho. Ironia, a imagem refletida nele também já está bem desgastada. Seu olhar passeia sobre a imagem refletida do velho espelho... Uma voz vinda lá do fundo de sua consciência diz: "Não é nem a sombra do que um dia foi". Os olhos alcançam toda a fisionomia do ser, menos os próprios olhos... Ele não conseguia olhar em seus próprios olhos. Nesse instante um vazio tomou conta da mente dele. Não sentia mais nada naquele momento. Era como se o chão tivesse desaparecido dali. Peso recaiu sobre seus ombros. Dor começou a sentir. Desânimo veio à tona. Um suspiro saiu de sua boca. E fazendo-lhe par, verteu lágrimas... O campo de visão entumesceu. Soluços surgiram, um após o outro. E num ímpeto de coragem, levantou seus olhos, encarando seu olhar deprimido, distante e desesperado.
Olhos cheios d água, vermelhos e sem esperança. Dizem que antes de uma pessoa morrer, um filme passa em sua mente. Mas ainda não era chegada a hora...

Aprendi sozinho que o mundo nunca para por nós. Seja qual for a situação o mundo segue, a vida segue. Aprendi que a tolerância é melhor que a impaciência, depois de me utilizar demasiadamente da segunda, e te ter minhas mãos gravemente feridas nas muitas pontas de faca. Aprendi que tem coisas que devemos fazer várias e várias vezes antes de obtermos um resultado satisfatório. Comprovei que amor é convivência, por isso ele se torna naturalmente incondicional. Aprendi que o trabalho nunca acaba, sempre se renovam diariamente seus afazeres.Percebi que às vezes fazemos sofrer quem mais nos ama. E quando me dei conta disso sofri em dobro. Comprovei uma velha lição de meu pai: "O mais importante não é ter, é ser!". Fui obrigado a ter como companhia diária a saudade. Fui obrigado a entender que às vezes, não temos explicações para as coisas que estão num plano superior. Aprendi que não se deve confrontar com a vontade Divina. Descobri que somos tão ínfimos quanto poeira côsmica. Mas sei que Deus nos ama mesmo com todos esses nossos defeitos e autoafirmações.

Há dias em acordamos assim... Sentindo uma carga sobre humana nos ombros. Sentimo-nos velhos... Desgastados... Sem expectativas. Sem ânimo, sem viço. Chegamos a pensar: "Chegou o fim".
Mas tenhamos em mente que só acaba quando termina!
A Existência digna de todos conforme os ditames da Justiça Social passa neste interregno. Almejá-la para alcançá-la são estados distintos. Meios e fins. O fim desejado depende de uma boa condução do enredo.
Mas o mais importante não é começar bem, e sim terminar bem.
Stone Henge.